Sábado foi a segunda e última noite do BMF Electronic. Pela primeira vez na cidade foi realizado um festival de música eletrônica de grande porte. Nos últimos dois dias, dezenas de atrações passaram pelas tendas. Dados da assessoria do festival indicam que cerca de 20 mil pessoas compareceram na sexta-feira e cerca de 25 mil no dia seguinte. O que se concluiu da ‘concorrência’ com o Skol Beats, é que ambos estão empatados em número de freqüentadores (por volta de 45 mil), embora oficialmente não haja nenhuma disputa.
No sábado o parque de diversões no estacionamento do Mané Garrincha continuava inteiro e pronto para mais 14 horas de música eletrônica. Os esportes radicais, entre eles escalada e o equipamento “Queda-Livre”, com 40m de queda, foram mania entre os adolescentes. Na sexta-feira foram 240 pulos.
A tenda trance estendeu-se até o meio-dia, com performances artísticas e neo-hippies dançando desvairadamente por horas a fio sob o clima seco de Brasília. Ao lado estava o ‘tech-house’ com o DJ sueco Christian Smith dono de um infinito sorrisão, que segurou o público até às 9h.
No final da tarde do dia 25 Nego Moçambique apresentou um Live P.A cheio de suíngue, mas que em muito se fez diferente de sua recente apresentação no Sónarsound Dia. O filho ilustre de Brasília enfrentou o mesmo problema pelo qual o Oil Filter passou na noite anterior: apresentou seu set para pouquíssimas pessoas. O detalhe é que por falha da organização, o portão de entrada ainda não havia sido aberto.
DJ Patife, ao lado de sua banda Vitrola Estereofônica, misturou samba-rock, MPB e drum”n”bass, sempre ao gosto do DJ. “Sonho em lançar um álbum com o Trio Mocotó”, confessou para a audiência no final da aplaudida apresentação. Na platéia havia uma gigantesca haste com algodão-doce, para completar o circo.
Até o mestre Grand Master Ney continuou com o clima de preferência pela “tenda dos ônibus” no BMF, a do hip-hop. Em vez de faixas próprias, o DJ preferiu tocar o que gostava, em uma espécie de discotecagem pessoal com muito R&B. Teve até o gangsta Snoop Doggy com “Beautiful”.
O Soul II Soul pareceu mais disposto no sábado, possivelmente pela correção de erros, como algumas falhas técnicas que aconteceram na sexta-feira. Com quase o mesmo repertório, o trio fez sua melhor apresentação quando voltou no tempo com Dee-Lite com “Groove Is In The Heart” e Caron Wheeler, vocalista do Soul se sentiu a própria Lady Miss Kier. E teve mais. “Billie Jean” do Michael Jackson e a clássica do Public Enemy, “Bring The Noise”.
A orquestra de drum”n”bass teve seu toque pessoal. Tony Colman, o cabeça por trás do London Elektricity, fez sua apresentação somente com faixas próprias e ao lado de cinco músicos, entre eles a cantora com gogó fortíssimo Liane Carrol, o MC Trip e o onipresente MC Stamina, com os vocais. A sonoridade era realmente de uma orquestra. Os brasilienses receberam positivamente a sonoridade mais suave, mas com a energia de uma banda de hip-hop. O londrino MC Trip cansou de dizer: “Ya, man, isso aqui é um drum’n’bass diferente. Algo que você nunca ouviu antes”.
Quase ninguém percebeu quando o grisalho Tony, a mil, apresentou seu primeiro grande hit, “Songs In The Key Of Knife”. O ponto alto foi quando a forte Liane quis levar ao público as letras da inédita “Life Is A Beautiful Thing”.
O norte-americano Green Velvet – enfim o Sr. Veludo Verde – apareceu. Dessa vez foi o inglês Justin Robertson que cancelou sua vinda para o BMF. Com seu ar superior, na metade do set o DJ conversou com a audiência e cantou uma única faixa, “La La Land”, num frenesi: “I”ve been the one to party until the end / Looking for the after party to begin / I”m going down to La La Land”. Ótimo cantor.
Com um aumento considerável de pessoas presentes, o caos se instaurou. O campeão DJ Craze deu um toque a mais de hip-hop no drum”n”bass. Pela milésima vez foi tocado o hit dos hits, “LK”, já que todos conhecem e prestigiam, mas Craze foi o único que fez diferente e fez uma variante para o hip-hop.
Os últimos dois dias foram árduos para os MCs Stamina e Cleveland Watkiss. A dupla de ingleses foram os maiores “workaholics”. Não perderam o ânimo e ficaram ligados por 14, 15 horas seguidas em cada set de DJ. Quando juntou os três, entre eles o “godfather” Bryan Gee foi o que a tenda precisava. De “Back To Love” do EZ Rollers até “Closer” do Suv e Ray Keith com “No No”.
Com um set de uma hora o gaúcho Phillip Braunstein estava mais maduro. O garoto fez seu set de uma levada só e abusou do virtuosismo. Talvez essa seja a sua maior peculiaridade. Teve um punhado de fãs, assim como os finlandeses do Darude. Com estilo de clubber escandinavo, o branquelo Ville Virtanen chamou a atenção das meninas e, com um set baseado num trance progressivo, mostrou no palco principal um pouco do trabalho ainda não tão conhecido no Brasil. O maior sucesso, “Feel The Boat”, nem esteve presente, mas o set agradou os mais ávidos ‘trancers’.
A carismática e sem-frescuras Misstress Barbara teve a platéia nas mãos com um techno enérgico, deslizante, e é claro, funky. Foi uma das grandes surpresas da noite. A marca de Misstress era a visceralidade, e por isso foi a única artista que provocou o público. Todos pediam mais. A falta de disposição dos brasilienses foi só na sexta-feira.
Últimas notas sobre o BMF Electronic:
- Entre uns e outros “rolês” por entre a pista do palco principal, Bryan Gee e Dillinja foram gentis e amigáveis com os fãs. Posaram para fotos e Gee autografou um álbum.
- Sábado é sábado. Não teve jeito. Milhares de pessoas a mais do que na sexta-feira. Foi um caos em todos os lugares, principalmente entre a tenda trance e a de tech-house.
- No set dos finlandeses do Darude na turma do gargarejo algumas garotas gritavam para Ville Virtanen: Lindo! Como se ele fosse entender o que era dito.
- No set da Misstress Barbara muitos perguntavam: “Quem é essa? Oh, ela manda bem!”
- O dia é que começou a festa. Misstress Barbara fez quase todo o seu set de manhã e o sueco Christian Smith entrou no “tech-house” às 7h. A tenda trance com o live dos franceses do Bamboo Forest e o israelense Skazi prolongou-se até o meio-dia.
- Ao acaso, a equipe do FiberOnline trocou algumas palavras com um segurança que checava os RGs da molecada. Maior de 16 pode entrar sozinho e menores, somente com os responsáveis. “É muito estranho ver meninas de 12 anos em festas grandes assim. Realmente não sei o que se passa na cabeça dessas pessoas”, respondeu o homem, indignado.
- Evento em família. Pai, mãe, avô e avó. Estavam todos.
- Tony Colman do London Elektricity – ao longo de seus 40 e poucos anos – esbanjou saúde. Fez uma grande performance, até teatral, há quem diga.
- O DJ do Eminem, Green Lantern, distribuiu copinhos de uísque para a turma do gargarejo no “hip-hop”. Dizem, os comentários mais maldosos, que seu nome mudou para DJ 51.
- O programa “Altas Horas” que nesse sábado foi transmitido diretamente do evento, na verdade foi gravado na quinta-feira. Dia sem festa, sem DJ tocando em tenda e com figurantes. Coisas bizarras da Globo.