Na ativa desde o início dos anos 90, o produtor Junio Leal é o responsável pelos projetos eletrônicos by G.O.N. e R3pvblika. Em entrevista ao FiberOnline, ele conta um pouco da história da EBM, de synth e future pop e de sua produção, que aguarda um lançamento oficial em CD.
1-Fale um pouco sobre o seu álbum. Já está finalizado e com previsão de lançamento?
Olha, o álbum já era para ter saído no ano passado. Contudo, uma série de imprevistos adiaram o lançamento para meados de 2007, o que provavelmente não acontecerá. O motivo é simples: como é muito difícil viver de musica no nosso país, e é preciso que se trabalhe para sobreviver, tenho trabalhado muito e o tempo, necessário para dar andamento ao processo, não tem aparecido. O álbum terá aproximadamente 15 faixas ou mais e pode contar com algumas faixas que estão disponíveis no site, claro que regravadas em estúdio algumas até já foram refeitas.
2-Qual o título?
Provavelmente será “Te deixar acreditar”, que além de estar em português (como a maioria das faixas do álbum vão estar) é uma das musicas mais baixadas na pagina do r3pvblika no fiberonline. Mas isso pode mudar, vai depender do que rolar daqui pra frente. Faixas podem aparecer e mudar totalmente o rumo já traçado do álbum.
3-Qual a diferença entre os projetos R3PVBLIKA e o by G.O.N?
O by G.O.N., é mais voltado para a E.B.M. que eu adoro. Como ao produzir com o by G.O.N. aparecia cada vez mais influências de outros estilos, eu resolvi usar essas influências em um outro projeto o qual batizei de r3pvblika. Eu criei o by G.O.N, no começo dos anos 90, foi logo quando eu e o Daniel Albinati ( do digitaria ) desfizemos o duo Labia Minora. Então ele seguiu um caminho (continuou com o Lábia ) e eu outro.
4-Voltando um pouco no tempo, como era produzir no começo dos anos 90? Dava muito trabalho?
Poxa, se dava. Acredito que hoje em dia poucos produtores sabem o que é trabalhar com colagens em decks e rolos. Como era comum a falta de recursos em um país recém saído de um regime ditatorial, era muito comum a utilização do que estivesse a mão, tipo sampler usados por DJs e teclados comuns por que sintetizadores eram (e ainda são) muito caros. Mas a gente se virava como podia e de vez em quando saía alguma coisa que prestava.
5-E hoje em dia, que recursos você tem usado pra produzir?
Hoje a história é bem diferente. Os equipamentos hoje em dia estão bem mais em conta. Mesmo quem não pode adquirir um equipamento de ponta pode contar com bons programas. E o computador já faz parte dos lares de grande parte da população. Hoje em dia eu utilizo mais é o PC mesmo, claro que bem modificado, por que não tenho tempo de ir a um estúdio e ficar por lá horas e horas. Quando vem a inspiração ligo o teclado controlador que já fica de prontidão e vou dedilhando até sair alguma coisa. E as vezes até que sai. Levando em consideração que não tenho nenhuma formação musical, acho que meu desempenho tem sido até razoável. Utilizo também diversos tipos de programas, e claro que sem um hardware de áudio decente a qualidade de som pode ficar comprometida.
6-Como funciona o seu processo de produção durante uma faixa, primeiro vêm as letras ou você parte primeiro da estrutura, como bases, seqüências e melodia?
Normalmente, do nada aparece uma idéia para uma seqüência bacana e eu vou montando o esqueleto do que poderá ser uma música. Mas esse tipo de criação é dureza, por que agindo assim eu tenho uns 300 instrumentais aqui e raramente pinta alguma letra que encaixe. Às vezes eu escuto alguma frase na tv ou no dia-a-dia, e pode surgir uma letra legal a partir dai. O certo é que não tenho um padrão de composição, e se você se prender a isso você pode limitar sua criatividade.
7-O que você tem ouvido ultimamente que tem te inspirado a incorporar novos elementos e timbres em sua música?
Pergunta interessante. Outro dia ajudei um amigo a produzir um cd de hip hop, e muitas pessoas me perguntaram: hip hop ? É, hip hop. Se você faz EB. e só escuta Front 242 a tendência é sair algo parecido com o que você escuta. Além de escutar o que se tem feito de novo, eu não dispenso meus CDs dos The Smiths, Depeche, Kraftwerk, Harry dentre tantas outras coisas, principalmente dos anos 80.
8-O R3PVBLIKA prestou uma bela homenagem ao Finis Africae em sua versão para “Armadilha”. Se fosse para fazer uma versão para algum artista internacional, para quem seria e qual a música?
Olha, eu sou muito ligado aos anos 80 e o Finis Africae foi uma banda que gravou muitas músicas marcantes. Fiz essa versão por que queria gravar em português e queria alguma letra que marcasse. Com o by G.O.N. eu fiz uma versão de “Big bang” do Bigod 20 na demo tape de 93 “Dog”s”, e estou quase terminando uma versão de “On the run” também do Bigod 20. Mas, o que eu gostaria mesmo de gravar, é qualquer música do Harry, de preferência “Question of a good man” ou “Silent telefone”, como fiz para aquele concurso do Fiber, mas o Hansen vive me enrolando e não me envia os vocais.
9-Dentro do vasto terrirório da música eletrônica, o synth e o future pop são alguns dos estilos menos difundidos no país, apesar da estrutura da música ter elementos de fácil assimilação pelo público, como linhas melódicas, batidas eletrônicas compassadas e proximidade com o trance mais comercial em seus timbres. A que você atribui isto?
Esses dois estilos têm algo em comum. O synth, mais pop, é de mais fácil assimilação e até já teve hits por aqui. Mas o Future, que descende direto da EBM, carrega em seu DNA toda uma cultura de difícil compreensão fora da Europa. A Europa dos anos 80 viu florescer uma quantidade de bandas de EBM como Neon Judgement, Cassandra Complex, A:grum, Front 242 dentre outros que, tinham em suas costas toda aquela linha de manifesto. Falavam de tudo. De futurismo, política, matança de animais, violência, nacionalismos, etc., e tiveram até alguns casos fora da Europa como o Skinny, o Frontline o Manufature. Não foi uma coisa que surgiu da noite pro dia. O continente passou por mudanças e dessas mudanças surgiu o movimento punk que deu origens a diversos outros movimentos. Ou seja, respondendo a pergunta: a atribuição mais lógica que posso dar a isso é simplesmente falta de cultura. Um exemplo claro eu tive outro dia quando uma cara me escreveu elogiando o som do r3pvblika e não entendia o valor que o Fiber dava a bandas como o Harry. Como era um garoto de 18 anos fiquei por quase 2 horas explicando a ele da importância do Harry para a música não só eletrônica mas alternativa no país.
10-E como está a cena eletrônica alternativa em Minas Gerais, principalmente em BH?
Olha, bh pode ser considerada a capital do pop nacional. As bandas pop que estouraram no país, como Skank, Jota Quest e Pato Fu, foram só uma pequena parte do que existe por aqui, e no cenário alternativo não é diferente porque aqui existem muitas bandas que não são muito conhecidas fora do estado como Lost Days, Cadaverina, Spieluhrv, Danzee, Digitaria, Enjoy, dentre outras. Não coloco o by G.O.N. e o R3pvblika nessa relação porque nunca me apresentei ao vivo. Falta de convite não foi. O fato é que não me sinto preparado ainda. A cena aqui é mais ativa do que parece, e tenho até um projeto de uma coletânea só com bandas daqui e que está em fase de seleção.
11-E quais os planos em vista até o final do ano?
Bom, além do tão esperado cd que dificilmente sairá, uma de minhas prioridades é a formação de uma banda para apresentações ao vivo, porque pipocam convites por todo o país, mas ainda não conto com estrutura para apresentações. A formação da banda está em andamento e para isso convidei dois amigos, o Ronei Villas Boas e o Carlos Eduand, podendo até ter um quarto elemento, o Eduardo Katrnk, todos pessoas que sempre estiveram as voltas com ambos os projetos que tenho e tiveram influência direta no que o by G.O.N. e o R3pvblika se transformaram.
12- Qual o conselho que você daria para o pessoal que está começando a produzir agora?
Acho que o essencial é que se produza ou tente fazer o que goste. Eu comecei a acompanhar uns amigos que promoviam festas por volta dos 12 anos de idade no começo dos anos 80. Esses estilos que existem por aí, eu não ouvi falar deles. Eu os vi nascer. O electro, a E.B.M. a house, o techo, vários. E fui dj até por volta dos 23, 24 anos quando comecei a embarcar nessa de produzir. Anda bem que fiz isso por que dos amigos que eram djs no mesmo bairro um iria se destacar até internacionalmente, e sem dúvida ofuscaria o resto. Esse amigo é o dj Nedu Lopes, que está aí arrebentando. Eu trilhei um caminho, ele o outro e acho que da turma antiga das pick-ups só nós dois estamos na ativa mesmo que em estilos diferentes. Mas acho que mais um desses amigos pode entrar no meio vindo a fazer parte do r3pvblika. O Ronei Villas Boas. Um amigo em comum. E o R3pvblika pode ganhar ainda como componentes o Carlos Eduand e o Eduardo Catrink (que já citei anteriormente) amigos sem o quais o by G.O.N. nem o R3pvblika existiriam. Citei essas pessoas por que eu aconselharia aqueles que estão querendo se meter nessa de produção, nunca deixar de ouvir as pessoas que estão mais próximas. Sejam elas parentes ou amigos. São essas pessoas que podem te dar forças para que você nunca desista, o que eu quase fiz por duas vezes. Uma certa vez cheguei a pensar em largar tudo, porque a explosão da house fez surgir dezenas de estilos e eu pensei que a tal E.B.M.. já tinha dado o que tinha que dar. Foram pessoas como as que citei, que não permitiram em hipótese alguma que eu parasse. Ainda bem.