O SLOP é o atual projeto do prolífico produtor Sérgio Lopes, também responsável pelas produções do Joe 90, MKT Krash e Sloptical Art. Com uma sonoridade mais próxima do electro tech e tech house, suas faixas tem o foco orientado diretamente para as pistas e exprimem muito bem esta sua nova fase de experimentações possibilitadas com o advento do Ableton e de lançamentos por selos gringos.
O projeto apresenta seu live na última quarta deste mês (25 de agosto) no clube D-Edge, na noite que reúnirá as festas CIO e fiberOnLive:
Conte um pouco sobre como foi a sua incursão para o universo da música eletrônica.
No final dos anos 80 eu frequentava muito um club aqui em São Paulo chamado Phoenix, na época a casa estava substituindo o Rouge/ Rouge Neon na Av. Henrique Schaumann, acreditem nessa época tinha até a matinée da Nation de domingo!
Lá eu comecei escutar muita música eletrônica com um apelo mais underground, e isso ficou marcado na minha memória. Eu corria atrás de discos, fitas e cd's a todo instante, eu era obcecado por Front 242, Alien Sex Fiend e Kraftwerk. Era super empolgado e usava até camiseta do selo Wax Trax!
Pulei todo esse lance de rave e psicodelia dos anos 90, acabei perdendo, mas logo que avistei um aparente 'revival' do electro dos anos 80 e conhecer o gênero 'Modertronic' como o Anthony Rother gosta de se referir, achei que deveria arregaçar as mangas e fazer parte disso. Foi quando voltei a me interessar.
Puxando pela memória, você consegue se lembrar qual foi a primeira produção eletrônica que ouviu e que mais te marcou?
A primeira que escutei tenho arquivado na memória, foi vendo um cover de Dee D. Jackson na TV no final dos anos 70 que ouvi "Automatic Lover". Lembro da cantora e um robô ao lado dançando no programa Carlos Imperial, eu tinha 6 anos e pedi até o compacto de presente aos meus pais, o synth era incrível e a dança do robô também.
As produções que mais me marcaram foram 5, nessa ordem: "Vangelis - Pulstar , Kraftwerk - Pocket Calculator, Afrika Bambaataa - Planet Rock, New Order - Blue Monday e Front 242 - Headhunter"
E como foi que rolou a sua entrada para o mundo da produção? Algum amigo te passou uns softwares, vc já se arrriscava antes com produção em hardware ou a coisa toda se deu de outar maneira?
Em 2003, tive um colapso nervoso no trabalho e fui obrigado a desacelerar. Por ordem médica, fui aconselhado a procurar um 'hobby' para relaxar e descobri na época que a única coisa que me relaxava de fato era colocar o fone de ouvido e 'brincar' com o software E-Jay!
Me matriculei na primeira turma do curso de produção especificamente pra música eletrônica do I.A.V. e com o tempo fui conhecendo programas mais completos e profissionais. O 'hobby' foi tomando mais do meu tempo, a ponto de me fazer repensar no rumo da minha vida profissional.
Você tem nada menos que 4 projetos, não é? Como eles surgiram?
Confesso que fiz de tudo para não ficar o tempo todo produzindo mas foi incontrolável, estou nessa de não parar de produzir há anos e isto pode ficar evidente pela quantidade de projetos que acabei criando.
Toda vez que o computador não aguentava mais ou eu comprava algum novo equipamento o som começava a soar diferente. Essas mudanças de equipamentos aliado à necessidade de sempre procurar algo novo me levou a trocar de projeto e seguir adiante com outro. Depois de um tempo vi que criei "4 caixas diferentes" e cada vez que termino uma produção vejo se ela serve numa delas.

Musicalmente, daria pra traçar um perfil individual de cada projeto? Qual a diferença entre a produção de cada um?
Joe 90 definia minha intenção de produzir ao invés de remixar ou somente fazer versões. É o primeiro projeto e foi onde tudo começou. Hoje eu tenho feed-back de amigos que afirmam que algo muito legal neste projeto ficou só nele e eu não consegui levar para os outros. Um dia quero encontrar este algo especial de volta e lançar com o nome Joe 90 novamente. Acho que nele estava mais evidente minha musicalidade sem o conhecimento técnico e a intenção de criar era talvez mais livre de estilo, mais experimental.
MKT KRASH tem uma musicalidade mais séria, electro com cara de EBM e algo industrial. Surgiu em 2007 com o intuito de definir mais a estética da minha música e assumir a escola alemã de vez. Há uma relação forte entre este projeto e o selo Data Punk.
Sloptical ART é a 'caixa' onde coloco o que não acho muita definição, talvez mais house e 'maximal'. Na verdade é mais livre. Quero encher o Sloptical ART de remixes mas ainda não encontrei tempo.
Slop é o projeto principal atualmente, é a abreviação de Sérgio Lopes, meu nome. Procuro selecionar para este projeto as produções mais alinhadas ao meu gosto pessoal para as pistas, que é este híbrido atual de minimal, techno, tech house, electro e afins. Nele dou um toque deep e house, soando um pouco "robótico e lascivo" ao mesmo tempo.
Da ala nacional da eletrônica, existe algum ou alguns projetos/artistas/bandas que você admira?
Admiro o trabalho do Fabiano Zorzan, o Propulse e do jeito que pude ajudei no lançamento do seu ótimo CD Infrassom com um patrocínio da Ultraeco em 2007, onde eu era o diretor de MKT na época.
Sou grato ao Dj Laurent F. por me ensinar alguns macetes de produção, além de gostar muito do som dele também. Admiro também o Link Off de Campo Grande pelo jeito DYI e 'roots' de fazer sua arte - um artista e tanto. Beto Salmon é meu professor e grande incentivador, além de produzir muitíssimo bem, ele é uma enciclopédia da e-music !
Escutei algo também do Gabe e fiquei impressionado com o nível.
E no âmbito internacional?
Xenia Beliayeva, Oliver Huntemann, Anthony Rother, Stephen Bodzin, Makossa & Megablast e agora os meu colegas de label como Extraplay, Max Gazeta, Beat Maniacs entre outros...
Recentemente você lançou material por um netlabel alemão. Como foi que surgiu a oportunidade?
O Beto Salmon me incentivou a enviar "urgente" umas tracks pra fora do país, em labels principalmente da Alemanha. Segui o seu conselho e em Junho deste ano um email muito direto perguntando se eu estava à procura de lançar minhas músicas. Era o alemão Kevin dono do netlabel Chibar Records e do projeto Extraplay. Gostei da objetividade e seriedade dele. Em alguns dias já estavamos masterizando as tracks, traduzindo contratos e lançando dois EP's quase simultâneos "Fade In" o primeiro, e o recém lançado "Azimov 3 Laws"
O que você tem usado pra produzir?
Tenho usado o Ableton Live com VST's e controladores. Para finalizar e masterizar as tracks estou enviando para estúdio e usando híbridos analógicos.
Você costuma finalizar as faixas logo na primeira "tacada", ou é daqueles que costumam fazer várias versões até chegar numa definitiva?
Costumo finalizar na primeira "tacada", acho que sou de poucas versões e muitos projetos!
Quantas horas em média costuma gastar pra criar uma faixa, desde a criação da primeira track até a finalização?
Se começar a passar de 7 dias eu sinto que estou ficando perdido e prefiro guardar para finalizar depois. As vezes isso não dá certo e a música fica perdida, inacabada.
Muitas vezes, ditados como "os fins justificam os meios" são aplicados na produção, principalmente nos métodos utilizados e no material que se usa para obter o resultado desejado. Nesse caso, você é contra ou a favor de usar samples e presets na produção?
Sou super a favor, não se pode tirar o mérito de um piloto de formula 1 por estar usando cambio semi automático e suspensão inteligente. O piloto tem que transcender ao que lhe dão em tecnologia e reverter em mais velocidade. Claro que existem pessoas se enganando e enganando o público, e geralmente os "fins" desse tipo de profissional é apenas o dinheiro e diversão, não tem uma responsabilidade com a arte.
Conte um pouco como será o live que você apresentará na quinta edição do fiberOnLive. Será baseado nas produções autorais suas como SLOP, ou faixas de seus outros projetos também marcarão presença?
Irei focar mais na fase atual apresentando os lançamentos feitos pela Chibar Records, mas certamente algumas das outras 4 caixas serão abertas!
E quais são as novidades até o fim do ano?
Sinceramente não aguento mais ficar em estúdio só produzindo, estou procurando um meio de me inserir efetivamente na noite e tocar aqui no Brasil. Na Alemanha já arrumei um booker, mas por aqui ainda nada... Em outubro prensaremos uma tiragem do meu primeiro vinil por lá que será o primeiro do selo Chibar Records. Até o final do ano quero promover ele ao máximo!
Acabei de receber a notícia de que lançarei um EP pela UnitOvOne Recordings de St. Louis (EUA), voltado para produções de techno e drum and bass.
Algo que quero deixar registrado aqui, é o fato de que, sem exagero, se não houvesse o site fiberonline, talvez eu não seguisse adiante como produtor. A oportunidade de postar uma faixa no site e saber que tem gente que realmente ama música eletrônica ouvindo já é o suficiente para seguir adiante produzindo. E isso faz muita diferença.