Faltando uma semana para o lançamento oficial de “Oversteps”, o álbum novo do Autechre, a dupla Rob Brown e Sean Booth libera o aguardado material para audição na íntegra.
Como já é tradicional na história que envolve os últimos álbuns do Ae, de tão aguardados eles têm sido cortejados por curiosos álbuns “fake”. Trata-se do fenômeno chamado “forgery”, em que os fãs/produtores disponibilizam na net uma série de álbuns falsos, que muitas vezes expressam o desejo de como eles deveriam soar, no ponto de vista de seus fanáticos criadores. Quanto a isso, Sean comenta na recente entrevista que cedeu junto com o seu parceiro de subversões eletrônicas para a revista ClashMusic:”Bom, agora já nos acostumamos com isso. Se não me engano esse já é o quarto álbum em que isso aconteceu, o primeiro foi o “Draft”. Isso está virando uma espécie de tradição agora”.
A equipe do Fiber escutou o trabalho e a opinião foi praticamente unânime – trata-se do álbum mais progressivo do Autechre. Essa conclusão foi alimentada e desencadeada por faixas como “Known (1) e “See On See”. A primeira apresenta camadas melódicas de cravo eletrônico sobrepostas, que aos poucos recebem giletadas de glitches. Pode parecer estranho para quem não conhece o trabalho do duo, mas trata-se de um meio de transportar a experiência com inclinações medievais para uma dimensão mais interessante. Mas é na segunda que a “progressividade” do álbum encontra seu ápice, com synths cristalinos programados para sugerir a virtuosidade de um Rick Wakeman. Nada mal explorar a complexidade dentro de um território menos brutal, mas um sinal de alerta parece resssoar quando o termo new age surge na mente de quem escuta.
“P2tPh8″ é a mais pacífica do álbum e sugere até uma psicodelia pastoral e sintética na abertura. A seguinte “Qplay” retoma a fórmula já clássica do Autechre de transformar algoritmos intrincados em música, ou seja , um liquidificador (desta vez em velocidade relativamente baixa) de synths e beats criados a partir de experiências com drum machines e barulho processado, alternando momentos mais “coordenados” com interferências sonoras disléxicas. Para os que preferem um “meio termo”, algo entre as sublimes abstrações e atmosferas arrebatadoras unidas a quebradeira menos radical da dupla, “Inlanders” e “R ess” são dois bons momentos.
“Treale” e “D-sho qub” são as mais retas de “Oversteps” e poderiam figurar entre as faixas de “Listening Tree” do Tim Exile, companheiro de selo que soube muito bem explorar os “soundscapes” do Autechre em favor de um formato mais pop.
Se você esperava pela brutalidade convencionada a partir de “Chiastic Slide” - e aperfeiçoada posteriormente em “Confield” – , boa parte deste “Oversteps” provavelmente soará mais como um álbum de ambient, dos menos convencionais dentro do estilo. Clique aqui para escutá-lo.
No capítulo “vanguarda industrial e EBM” dos anos 1980 no Brasil, o The Klinik ocupa um lugar especial junto a outros poucos belgas que conseguiram deixar sua marca eletrônica indelével nas pistas, na memória e até mesmo em registro fonográfico por aqui (mesmo que seja apenas com uma faixa). Para colocar essa parte alternativa da história da música sintética em pratos limpos – ou melhor, no palco mesmo - faz-se necessária uma iniciativa quase heróica e ideológica de poucos (e bons). Esse é sem dúvida alguma o caso do Projeto Ferro Velho.
Sua quarta edição aconteceu no último sábado no Inferno Club, cujo palquinho já se transformou numa espécie de ponto de convergência de bandas do electro-industrial gringo. Que existem fãs desse estilo (ou similar) no país é inegável, basta ver a quantidade de pessoas que integram as comunidades mais “underground” do electro, conhecidos notoriamente como cyberpunks, bigorneiros, EBMers (são vários os singelos apelidos). Mas na realidade – digo no mundo real – onde estão eles?
O evento do último sábado poderia ter sido uma resposta à pergunta acima, mas a impressão que fica é a de que o “quórum” neste tipo de festa parece estar diminuindo gradativamente, justamente quando deveria acontecer o contrário, em plena época de descobrimento da música industrial pela juventude européia. Nesse contexto, o show de uma banda como o The Klinik é, aqui ou em qualquer parte do mundo, um acontecimento notável.
E foi com o rosto coberto por tiras de gaze e com capas escuras que a dupla assumiu o palco, depois da apresentação do trio brazuca de rock industrial Modus Operandi, que se despediu da platéia com gritos primais e sucata sendo vorazmente espancada no palco. Citando o brado do guitarrista no fim do show: “Nas Bahia também tem isso”.
O The Klinik abriu com a minimalista “Surviving in Europe”, um dos exemplos mais radicais de como o som do Klinik mantêm-se atual e fiel à maxima defendida por Ivens de que “menos é mais”.
O fantasma que assombra as projeções de vídeo no clube da Rua Augusta, e isso parece ser recorrente, foi exorcizado entre a segunda e terceira músicas. Mesmo com uma potência de som razoável, levando-se em conta o porte do estabelecimento (para umas 500 pessoas), deu pra sentir que as imagens ao fundo assumem dimensão e papel muito importante no show. Felizmente, a ausência delas não durou muito e a experiência de se ouvir músicas como “Moving Hands”, “Black Leather” e “Hours and Hours” foi otimizada.
Com uma certa idolatria pela sonoridade analógica na eletrônica atual, não é de se estranhar que boa parte das músicas do show resistiram muito bem ao teste do tempo. Não só pelo som e timbragem em sí, mas também pela estrutura hipnótica – algumas vezes propositalmente intrincada. Limando a voz de Ivens (o que não seria o fundamento ideal nesta apresentação), algumas passagens eram puro IDM.
No finalzinho, como não poderia deixar de ser, a enérgica “Go Back” e muitas corpos dançando convulsivamente em movimentos horizontais, enquanto as máquinas digitais e celulares capturavam o momento da despedida do duo.
Confira abaixo as fotos da noite de sábado no Inferno Club:
Antes mesmo de chamar a atenção com a sua produção, a dupla Mixhell do casal Iggor Cavalera e Layma Leyton já invadiu vários cases e ambientes noturnos com seu logo que remete imediatamente – e irremediavelmente – ao RUN DMC. O set bombástico dos dois, junto com uma grande leva de produções maximalistas dos últimos 4 anos, talvez tenha sido um dos principais motivos dos DJs repensarem o volume durante suas performances e aumentarem o ganho no mixer.
Com a ajuda do produtor Max Blum, que atua há bons 8 anos na produção musical de trilhas de desfiles para temporadas de moda e passou a ficar mais conhecido no circuito da “eletrônica brasilis” na época de sua parceria com Paulo Beto (no projeto Freakplasma, no qual Max era co-produtor), o Mixhell acabou funcionando como um trio e lança agora pela 3plus/ST2 Records seu álbum de estréia, que é marcado pelo espírito colaborativo.
Além de faixas autorais como a “boombada” e requebrante “Boom Da”, o álbum reúne também remixes assinados pelos três para faixas de outros artistas e, em contrapartida, remisturas feitas por outros produtores em cima de faixas do projeto. Pra conferir ainda mais uma característica de álbum mixado, têm também faixas em que o Mixhell nem é mencionado, como “Wachadoin?” do N.A.S.A com remix do Villains e “Cornelius” do Bloody Beetroots. Portanto, não é de se estranhar a participação de tantos nomes em um só lançamento: os belgas Goose, o sueco Houratron, a dupla Maluca Y Diplo, Brodinski (da Boyz Noise Records), Villains, N.A.S.A., The Bloody Beetroots e Crookers. Estes são apenas os mais conhecidos de uma extensa lista que alcança a marca de quinze presenças distintas.
Dessa maneira “Mixhell” deve ser encarado como um poderoso e abrasivo mix e faz mais sentido quando escutado em seqüência contínua a partir da introdução/brincadeira ao mesmo tempo infantil e safada, com ares funkeiros e assinada pela alcunha de Mixhell Kids.
O som começa a assumir proporções maximalistas e compulsivas já na segunda faixa, “Highly Explicit”, que é uma espécie de carro-chefe e ganhou remixes do Goose, Brodinski, Houratron. Ela é seguida por duas micro-faixas de aproximadamente um minuto (”Corporate Occult” do Huoratron, remixada por Iggor, Layma e Max) e a já mencionada “Boom Da”, que replicam a mesma idéia de “Highly” e evidenciam um jeito interessante de se formatar um álbum. O DJ que desejar incorporá-las no set (se for de fidget house, melhor ainda) vai ter que se virar nos 30″, ou em um minuto.
Como num liquidificador de idéias e referências, “Dance or Die” reúne os squelches da acid com as freqüências mutantes do hardcore techno e um agogô sequenciado para reforçar a cozinha dançante que vai do kuduro ao electro, tudo isso na mesma faixa.
Independente do prazo de validade da fórmula maximalista de se pensar em dance music, ao final da 17° (e última) faixa de “Mixhell” fica uma impressão de que o projeto cumpriu muito bem a missão de registrar esse momento visceral e efervescente das pistas. Seja mais próximo do mixer que das baquetas, a mentalidade do Iggor Cavalera continua bem rock´n´roll.
Confira abaixo três momentos distintos do álbum:
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Mixhell – “Higly Explicit” (Goose remix)
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Mixhell – “Dance Or Die” (One Man Party remix)
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From Monuments to Masses - “Beyond God and Elvis” (Mixhell remix)
Com o advento e popularização das novas tecnologias, muitos DJs que limitavam-se apenas a discotecar passaram também a produzir suas próprias faixas. Com isso, os Dj sets passaram a conviver lado a lado com os live acts, cujo formato foi explorado de acordo com o espaço permitido nos clubes. Seja com o uso de laptop e contoladoras até a incorporação de instrumentos convencionais – e outros muito curiosos como os criados pela turma do “circuit bending”, os sets ganharam muito em dinâmica e personalidade.
Por outro lado, viu-se vários dos famosos lives “fakes” que atrairam a atenção de muitos blogs especializados em delatar os supostos “artistas”, caso do comentado deadact.com. A iniciativa rendeu “pano pra manga” em discussões acaloradas sobre as apresentações de nomes como o Justice e um punhado generoso de lives de psy trance.
À frente do mixer, celebridades inexperientes decidiram assumir de última hora seus respectivos “lado DJ” e os fóruns de discussão de música eletrônica registraram altíssimos índices de participação, com comentários sagazes e outros repletos de puro senso de humor.
Enquanto isso, surgem gradativamente mais cursos de profissionalização de DJs e produtores e , com isso, o aumento representativo de interessados e participantes. Hoje temos inclusive cursos ministrados por universidades brasileiras e, se tudo caminhar conforme os acontecimentos recentes, a sanção para que a profissão DJ seja regulamentada será finalmente assinada pelo Presidente da República no primeiro semestre de 2010.
E que o ao novo e a nova década reservem muitas e ótimas surpresas para inspirar ainda mais os produtores, bandas, projetos, coletivos e toda a gama de formatos responsáveis pela propagação e evolução da músca eletrônica.
Como diz o velho ditado popular: “Nada se cria, tudo se copia”. No território da eletrônica, seria injusto levá-lo ao pé da letra. Em nome da renovação, muitas das novas produções da década foram realizadas com a apropriação de elementos de outros estilos, e com isso surgiram novas tags para identificá-las.
Eis que surgem categorias como o grime (pegando emprestado elementos do UK Garage, dancehall e do hip hop), o dubstep ( com influência do 2-step, dub , do grime e drum´n´bass) e a leva dos “neo” – aplicadas em grande parte à disco, synthpop e ao electro maximalista.
Por outro lado, sub-gêneros que tiveram seu auge nos 90´s voltaram com força e revitalizados, como é o caso do tech house, progressive house, breakcore e o minimal techno, que passou por uma reformulação de timbres, BPM e com doses generosas de experimentalismo e sofisticação.
Quanto ao formato da programação dos clubes e festivais, a diversidade foi um dos fatores predominantes. Os festivais de rock assimilaram o electro e o electro-rock, o techno e o electro foi assimilado no line up de raves e festas open air em que o psy trance reinava praticamente absoluto, promoters de festas de hip hop, techno e electro passaram a dividir seus projetos num mesmo clube, seja durante a semana como em uma única festa, abrindo espaço para a exploração de diferentes sonoridades numa mesma noite.
Sem contar com os sets dos DJs, que passaram da unidade de um único estilo para uma experiência mais eclética, o que – há que se questionar – não era lá muito visto e ouvido durante as jornadas eletrônicas noite afora.